Entrevista de S.A.R. o Duque de Bragança à revista "FOCUS"

 
 
 
Entrevista à revista FOCUS, 1 de Janeiro 2002
 
 
 
Como vê a relação do povo português com a Causa Real e a sua pessoa?

A minha família e eu somos bem recebidos, com estima e carinho, por todo o nosso país e mesmo no estrangeiro indiferentemente das opiniões políticas das pessoas. Por exemplo muitos dos Presidentes das Câmaras que nos convidam são assumidamente republicanos incluindo comunistas. Recebem-nos como representantes da nossa História e parte do nosso património cultural. Quanto à Causa Real, é a Federação das Reais Associações distritais. Ocupam-se do estudo e divulgação do pensamento monárquico e nelas se associam pessoas de todas as tendências políticas e todos os meios culturais e sociais e têm interessantes páginas na internet. Os seus dirigentes e sócios costumam também acompanhar-me durante as visitas que faço às varias regiões do País. Existem inclusive nos E. U. A. e na Europa algumas Reais Associações portuguesas e têm interessantes páginas na internet.


Qual e a atitude do povo português perante a monarquia ?

Tradicionalmente a maioria dos portugueses encara a opção Monarquia/Republica com base nas suas simpatias ou nos preconceitos, referindo-se a História que aprenderam. Ora os livros de História das escolas são escritos por republicanos, frequentemente de um modo muito tendencioso. Outros pensam nos contos de fadas e em outras fantasias... Felizmente o facto de muitos emigrantes viverem em monarquias, e as televisões e revistas desses países serem muito acessíveis em Portugal, ajudaram a uma melhor compreensão desses regimes.


Acredita na restauração da Monarquia em Portugal?

Quando se compara a qualidade de vida nos países cujo chefe de estado é um rei com os que têm um presidente, os primeiros passam quase sempre a frente dos segundos. Se os portugueses tiverem a possibilidade de se informarem livremente, e se os nossos políticos tiverem suficiente vontade democrática para aceitarem ouvir a opinião do Povo soberano e forem capazes de analisar objectivamente as vantagens e defeitos de ambos os sistemas, acredito na possibilidade da Monarquia em Portugal.


Considera recomendável um referendo sobre o assunto?

A nossa Constituição não permite que o Povo se exprima e altere " a forma republicana de governo". Ora o artigo 288 b) da Constituição é um insulto para metade dos países da União Europeia ao afirmar que o regime deles é inaceitável. Um Rei numa Democracia é inaceitável, mas uma Republica não democrática já seria aceitável!

O artigo 288 b) deveria ser corrigido, defendendo "a forma democrática de governo". Sei que em breve será lançada uma recolha de assinaturas para pedir a correcção deste artigo que é verdadeiramente antidemocrático ou simplesmente equivoco. As três Republicas portuguesas foram impostas ao povo por golpes militares, e nunca foram referendadas, como deveria ser o caso em Democracia. Nos últimos anos houve um referendo no Brasil onde ganhou a Republica e um na Austrália onde ganhou a Monarquia e essas manifestações de maturidade democrática não causaram traumas ou dramas nenhuns. É, no entanto, fundamental que a pergunta seja imparcial e estabelecida de acordo com ambas as partes, o que não foi o caso no nosso referendo sobre o aborto.

Portugal merece que a sua Democracia torne disponível à vontade dos portugueses uma alternativa constitucional coerente com a sua cultura e que nos permita acompanhar os países mais avançados da Europa.


Que responsabilidades e direitos tem o detentor de um titulo nobiliárquico ?

Direitos não tem nenhuns. O reconhecimento dos serviços prestados pelo próprio ou pelos seus antepassados traz obrigações e responsabilidades de ordem moral. Caso contrário, nas monarquias os títulos podem ser-lhes retirados, como deveria suceder com as comendas que as republicas costumam dar.

Qual a função que um Rei deve ter numa futura constituição portuguesa ?

Isso dependeria do Parlamento, mas nas monarquias europeias as funções dos seus reis são menos intervenientes do que as do nosso Presidente . No entanto a influencia dos reis chega a ser muito importante, sobretudo em momentos de crise nacional, como vimos em Espanha e na Bélgica recentemente, e nos países invadidos pela Alemanha durante a II Guerra. O mesmo esta a acontecer no Afeganistão e na Bulgária, mesmo com reis exilados. Vários países como a Jugoslávia, Roménia e Rússia reconhecem agora a grande utilidade que as suas Famílias Reais podem ter para a recuperação da sua identidade nacional após meio século de regimes repressivos e destrutivos. Em qualquer caso será um símbolo de nacionalidade e afirmação cultural.


Considera benéfica para a Causa Real uma relação próxima com a chamada "imprensa cor de rosa"? ''''''''''''''''E uma maneira de aproximar a população?

Não sei se é benéfica, mas considero que as pessoas gostam de acompanhar a vida da sua Família Real, a que, por razões afectivas se encontram ligadas. Elas podem cumprir uma função social útil , tal como acontece em toda a Europa.


Que mudanças é que a restauração de um regime monárquico traria à vida dos portugueses ?

Tal como nas outras monarquias um Rei ou Rainha dariam mais garantias à preservação dos nossos valores fundamentais. E contribuiriam para a imagem do país no estrangeiro e para a afirmação da nossa identidade e soberania, que estão e ser postas em causa pelo projecto de uma Europa Federal.


Costuma votar? Vota nas presidenciais ?

Não voto nas presidenciais, nem nas legislativas, mas voto nas autárquicas, onde escolho a pessoa que me merece mais confiança, independentemente do seu partido.

Seria longo demais comentar todas as nossas instituições politicas Durante a minha vida encontrei excelentes pessoas como presidentes, que exerceram o cargo com toda a dignidade e responsabilidade. Incluo o Presidente Dr. Jorge Sampaio, claro. O problema está nas contradições com que se encontraram confrontados entre as sua fidelidade partidária e as suas convicções pessoais. Numa Monarquia a Constituição seria respeitada, o equilíbrio de poderes e a sua separação preservados, num sistema democrático semelhante ao actual, nomeadamente no que se refere ao sistema partidário.

A Inglesa, a Japonesa, as escandinavas, etc. , souberam adaptar-se à evolução cultural dos seus povos, e o mesmo sucedeu e continuaria a suceder em Portugal caso não tivesse havido o regicídio e o golpe militar em 1910. São instituições "ecológicas", perto da natureza humana, e não "ideológicas" como as republicas criadas após a Revolução Francesa. Já a Republica Suíça evoluiu naturalmente da tradição e cultura do seu povo, e por isso é a que melhor funciona no Mundo.


 
 
 
 
 

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