Não é saudável para a democracia deixar o monopólio da representação política a uma espécie ''clubes fechados'' - (O Diabo)

 
 



O DIABO- Estamos no final da legislatura. Como avalia estes quatro anos de Governo José Sócrates?

DOM DUARTE- Tem tomado decisões boas e outras erradas. Não ponho em causa as justas intenções dos governantes, mas há falta de participação dos cidadãos devidamente organizados nas decisões que comprometem o nosso futuro. Um bom exemplo de como essa intervenção cívica pode ser importante foi a que levou a cancelar o aeroporto da OTA. 
 

Há quem diga que Portugal viveu ma situação preocupante, sobretudo agravada pela crise económica porque apostou no modelo errado de desenvolvimento. Concorda?

Há anos que venho defendendo essa posição. Não podemos investir em betão e pior, em luxos desnecessários de País rico, enquanto a nossa gente tem um desenvolvimento cultural e formação profissional inadequado para os novos desafios, os agricultores não dispõem das mesmas condições dos seus colegas europeus, etc. O mais grave pode ser a destruição das nossas terras agrícolas, que foram classificadas pelo então Secretário de Estado, Gonçalo Ribeiro Telles, como Reserva Agrícola Nacional, e que têm sido sistematicamente destruídas, com ou sem a aprovação oficial. Junto com a perca dos saberes dos agricultores, com a morte de muitos e o abandono de outros, corremos um grave risco de falta de abastecimento alimentar quando a crise financeira portuguesa se agravar.
 

Quais são as urgências do País nestes tempos tenebrosos que vivemos?

Devemos com coragem rever o nosso modelo de desenvolvimento, as nossas prioridades tanto a nível de Estado como individuais «Ocasião excelente para mudar de atitudes»

 

O desemprego aumenta. As famílias e as empresas estão endividadas. Quando a crise passar como vamos reerguer-nos?

É uma ocasião excelente para mudar de atitudes. Já aconteceu recentemente a falência de certos países, como a Argentina, e eles encontraram boas soluções acabando por ficar melhor do que antes. Conviria estudar esses casos. Faz sentido que imensa gente esteja a receber subsídios, de desemprego ou de inserção social, e não contribua de algum modo para a sociedade? É humilhante e mau para eles e muito injusto para quem os sustenta, com os seus impostos. Deveria haver um serviço cívico em que os desempregados, se subsidiados, se ocupassem enquanto não encontrarem o emprego adequado. Algo do género tem sido feito encaminhando alguns jovens para colaborar com instituições de solidariedade sociais.
 

Como avalia a forma como o Governo tem lidado com a crise económica?

O Professor Medina Carreira tem explicado com lucidez a situação. Os grandes investimentos em obras públicas vão aumentar a nossa dívida pública, que segundo ele aumenta em dois milhões de euros por hora, e não contribuem para resolver o problema. A maior parte do dinheiro investido vai logo para o estrangeiro: remessas dos emigrantes, compra de material, e o mais grave, os portugueses gastam grande parte dos salários a comprar produtos estrangeiros. Seria melhor apoiar as empresas portuguesas viáveis, não as falidas, para serem capazes de competir com as estrangeiras. Não é sobrecarregando-as com impostos que se consegue isso! Nessas empresas incluo os bancos.


Onde está a raiz dos problemas do País? Na Educação, na Justiça?

Na base de todos os problemas está a falta de educação do raciocínio lógico! Os programas escolares enchem a cabeça das crianças e jovens de regras e informações, como se enche os chouriços, mas eles em geral não sabem utilizar o que aprendem. Não se ensina a raciocinar, e pode parecer que isso seja propositado, pois é mais fácil manipular «as massas humanas» estupidificadas pela televisão do que um Povo que sabe pensar e avaliar onde está a verdade. Veja que o ensino da Moral é francamente desencorajado. Eu compreendo a revolta dos professores que se sentem desautorizados por programas desadequados, ou politicamente motivados, feitos nem se sabe por quem. E pela falta de autoridade nas escolas públicas. Um exemplo das decisões insensatas foi a obrigação das aulas durarem 90 minutos. Como é que querem que as crianças prestem atenção à aula durante uma hora e meia? A outra foi mudarem as carteiras escolares para mesas horizontais, péssimas para a saúde e aproveitamento escolar das crianças! Há mais de dois mil anos que se sabe que devemos escrever e ler em carteiras inclinadas, mas algum génio decidiu em Portugal que sabia mais, e mudou tudo, contra a opinião de todos os médicos de medicina postural. As associações de famílias dos alunos, de professores, os psicólogos, etc. deveriam ser ouvidas.


Há quem diga que um bom Sistema de Justiça é sinónimo de desenvolvimento económico. O nosso sistema judicial também está na origem no nosso atraso?

As leis são mal feitas, o trabalho dos deputados não é suficientemente apoiado por especialistas nas diferentes matérias, e os juízes não têm condições de trabalho. Em geral, nem sequer tem secretários. Os «palácios de Justiça» são aberrações arquitectónicas, mal concebidos, para além de desfearem a paisagem.


A crise que afecta o País atinge a classe média e os pobres. Os ricos passam imunes a esta crise?

Alguns irão à falência, outros sim mais cuidadosos. Mas para as pessoas com boa formação moral é duríssimo ter de encerrar uma empresa e despedir os seus colaboradores.


Na sua opinião vamos ter, no futuro, uma estratificação social diferente da que tínhamos até agora?

Não sei. O Interior do País é uma das zonas que mais tem sofrido coma crise económica. Fraco tecido empresarial, precariedade no emprego.
 
Na sua opinião, o Governo tem tido uma política de protecção do Interior do País?
Os governos têm investido no desenvolvimento material das cidades e vilas do Interior, mas não têm encorajado a fixação, ou mesmo a deslocalização de empresas para lá com excepção de alguns «pólos universitários» interessantes. Mesmo as empresas e serviços do Estado ficam quase sempre em Lisboa, contrário do que se passa na Europa desenvolvida.


Continuamos a ser um País atrasado a todos os níveis ao nível europeu e por isso não conseguimos dar o salto?

Comparando com o que se passava antes do golpe republicano de 1910, estamos muito mais atrasados em relação ao resto da Europa. Não percebo como é que se vai gastar mais de dez milhões de euros para festejar isso, os cem anos da República.

Deixo uma sugestão: em homenagem à República usem essas verbas para financiar iniciativas caritativas, sociais e de desenvolvimento humano.


Por falar em investimento. Vamos ter um novo museu dos Coches que vai custar ao País 30 milhões de euros. Como comenta este investimento?

Está a correr na Internet e cá fora um abaixo-assinado contra o abandono do actual museu dos Coches, que é belíssimo e um dos mais visitados em Portugal, especialmente pelos estrangeiros. Gastar essa quantia inutilmente é inaceitável, ainda por cima para construir um caixote de cimento e vidro que chocará violentamente com a graça e beleza da área de Belém.


Há quem defenda a necessidade de refundação da República. Concorda?

O regime republicano foi implantado pela força de um golpe militar apoiado pelos terroristas da época, a carbonária, nunca foi referendado e na minha opinião, não foi verdadeiramente assimilado pelos portugueses. Por isso a maioria quer um Presidente que seja como um Rei, independente e isento, o que é muito difícil. Durante a minha vida conheci excelentes presidentes, desde o Almirante Américo Thomaz até ao actual, mas a sua origem política e as forças que os apoiaram dificilmente são compatíveis com uma imagem de independência. A corrupção tem dominado o sistema político português nos últimos anos, de forma mais visível e mediatizada.


De que forma se pode acabar com o fenómeno?

Diminuindo as intervenções do poder político no campo económico, não autorizando derrapagens orçamentais superiores a 5 por cento, reforçando as capacidades do Tribunal de Contas, e educando a população para que consigam perceber que um político corruptor enriquece à nossa custa e não pode ser premiado com a reeleição, como tem acontecido em vários municípios.
 

A democracia que temos está hoje mais forte ou, como muitos dizem, está frágil e a precisar de refundação?

Está preocupantemente frágil. Senão estivermos melhor preparados para enfrentar a crise, receio que a população mande a democracia para as urtigas. Este ano vamos ter três eleições.


É de esperar, na sua opinião, alguma mudança no mapa eleitoral das legislativas e autárquicas, sobretudo?

Acho que as eleições europeias seriam uma boa ocasião para movimentos cívicos representativos das grandes organizações sociais ou de valores éticos e morais se organizarem e participarem, podendo eleger representantes independentes para o Parlamento Europeu. Os movimentos ambientalistas, o movimento cooperativo, as organizações caritativas e de solidariedade social, etc., poderiam participar para fazerem ouvir a sua voz, em colaboração com as congéneres europeias. Não me parece saudável para a credibilidade da democracia deixar o monopólio da representação política a uma espécie de «clubes fechados» em que infelizmente se estão a tornar os partidos em muitos países.


Acha que José Sócrates renovará a maioria absoluta?

É melhor perguntar ao Dr. Karamba


Que futuro tem o nosso País na Europa a 27 e no Tratado deLisboa?

Gosto do lema usado em alguns países quando tiveram os referendos a que nós não tivemos direito: «Europa sim, mas não assim» O meu Tio Arquiduque Otto de Habsburgo, eurodeputado até aos seus 90 anos e grande promotor da «construção europeia», defendeu sempre que a Europa deveria seguir o modelo da velha Confederação Helvética (Suíça) e tornar-se uma Confederação de países independentes, em vez de caminhar para uma Federação de estados com menos liberdades do que os dos EUA, como na verdade se pretende com a «Constituição reciclada», o Tratado de Lisboa. Este debate tem sido sonegado, mas é fundamental para que a verdadeira unidade possa funcionar duradouramente. Ninguém nos explicou o que levou os Irlandeses a votar Não no referendo, mas foram motivos muito válidos e justos.


in: O Diabo



 

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